Ganhador do prêmio Nobel de 2016, cientista escocês inspirou a comunidade acadêmica em evento gratuito e aberto ao público

Estudantes e docentes encheram o auditório da ADUnB para ouvir o ganhador do prêmio Nobel. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB
Estudantes e docentes encheram o auditório da ADUnB para ouvir o vencedor do prêmio Nobel James Fraser Stoddart. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

Descobertas científicas marcam a narrativa da humanidade. A temática rende uma excelente abordagem histórica e pode ficar ainda mais interessante em uma aula de química. Foi o que demonstrou Sir James Fraser Stoddart, cientista ganhador do prêmio Nobel de Química em 2016, com a palestra Máquinas através do tempo, ministrada na Universidade de Brasília nesta terça-feira (9).

“A máquina mais simples é a roda. Ela remonta a muitos milhares de anos e todos nós sabemos de sua importância. Vamos falar sobre outras máquinas: motores elétricos, motores de combustão interna, motores a diesel, motores a jato, motores de foguetes”, introduziu Stoddart. 

“E não só disso, vamos falar de nossos motores biológicos, que existem há muito mais tempo que qualquer outra máquina”, continuou, em referência às pesquisas sobre máquinas moleculares que lhe renderam o prêmio Nobel. “Também podemos olhar para o futuro e para as lacunas que deverão ser preenchidas”, propôs o pesquisador à plateia, que lotou o auditório da ADUnB. 

Em resgate ao papel vital da ciência para o progresso, Stoddart traçou um panorama de avanços tecnológicos, regressando a 1765, quando James Watt criou o motor a vapor – invenção posteriormente aplicada em locomotivas. O cientista relembrou a importância das contribuições de Michael Faraday, com a transformação de energia elétrica em movimento, mais tarde resultando em motores e dispositivos eletrônicos. Entre os avanços seguintes estão os motores de combustão interna, a diesel, a jato e de foguetes.

Foi então que o Nobel introduziu explicações sobre os motores biológicos, apresentando-os como sistemas do corpo humano que produzem energia a partir de processos realizados em nível molecular. A partir dos conceitos observados nesses motores, o químico inovou com o desenvolvimento de uma nova forma de ligação e articulação de nanoestruturas, por meio das chamadas máquinas moleculares. A pesquisa trata de moléculas macrocíclicas que se entrelaçam por meio de ligações mecânicas. Estas ligações permitem às moléculas realizar movimentos que geram trabalho, dando origem a espécies de motores que simulam, em escala molecular, engrenagens e sistemas utilizados no mundo macroscópico.

As duas principais nanoestruturas envolvidas na pesquisa são catenano e rotaxano. A primeira consiste na interconexão de dois ou mais macrociclos, de forma similar a uma corrente; a segunda pode ser descrita como um anel preso ao eixo de um halter (peso utilizado em academias).

CONQUISTAS COMPARTILHADAS – Em meio à apresentação da pesquisa, o laureado exibiu fotos de estudantes e pesquisadores que, ao longo do desenvolvimento do trabalho, participaram das descobertas científicas. “Estamos analisando 35 anos de pesquisa. É uma carreira que não diz respeito somente a mim, mas aos alunos que estiveram comigo nessa caminhada”, destacou.

O pesquisador garantiu que as descobertas resultam de um esforço em equipe. “Tive oportunidade de trabalhar com mais de 500 jovens, de 50 nacionalidades diferentes. Eu fui muito sortudo, é uma grande família.” Stoddart incentivou os universitários a encontrarem espaço para desenvolver seu potencial. “Procure um ambiente onde você tenha liberdade para expressar sua criatividade. Foi isso que permiti aos meus alunos”, contou.

O estudante Luís Henrique interagiu com o cientista nobel durante rodada de perguntas. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB
Luís Henrique Costa, estudante de Geologia, interagiu com o cientista durante rodada de perguntas. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

Calouro de Geologia, Luís Henrique Costa foi um dos participantes da aula. “Sempre fui fascinado por química e hoje tive a oportunidade de conhecer de perto um pesquisador como ele”, compartilhou o acadêmico de 17 anos. “Eu gostaria que o Brasil tivesse mais incentivo à ciência. Espero um dia ser um pesquisador como ele e representar o Brasil com uma pesquisa que inspire outras pessoas”, disse o jovem, que sonha em se dedicar à docência e à pesquisa acadêmica.

O universitário questionou Stoddart sobre possíveis aplicações da pesquisa premiada. O cientista informou que o uso das estruturas moleculares no revestimento de smartphones, para tornar o material resistente a arranhões, é uma das aplicações já encontradas. Outro fim empregado é aumentar a eficiência em baterias de lítio. As grandes aplicações da tecnologia, entretanto, estão na área da química. “A estereoquímica foi revolucionada pela descoberta e invenção da ligação mecânica. No futuro, veremos grandes aplicações também na área de saúde”, garantiu.

Graziella Joanitti, docente de Biologia na Faculdade UnB Ceilândia (FCE), se emocionou ao falar sobre a relevância da iniciativa. “Eu vejo muito aluno bom desistindo da carreira na ciência. E essa iniciativa é um incentivo para que os jovens pensem duas vezes antes de seguir para uma área que não tem nada a ver com o que gostam”, opinou. “Stoddart não trouxe apenas a pesquisa, mas a experiência de uma vida dedicada à ciência”, ressaltou.

Para Débora Santos, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Nanociência e Nanobiotecnologia (PPGNano) do Instituto de Ciências Biológicas (IB), a oportunidade abriu um leque de possibilidades de pesquisa. “Minha pesquisa abrange a aplicação prática da nanotecnologia na área da saúde. Não se relaciona diretamente com a temática, mas é uma proposta para avaliar a área a partir de outro campo”, reconhece.

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